sábado, 25 de dezembro de 2010

Vende-se Natal.

Meia noite. Enquanto comia a minha fatia de chester, observava todos ao redor com a maior sutileza possível. Enquanto crianças gritavam, casais discutiam e anciãs caducavam, eu chegava a uma espécie de epifania natalina.

O Natal se tornou uma data extremamente comercial desde o início da era Coca-Cola, onde o aniversariante era esquecido praticamente o tempo inteiro. Contudo, a tradição familiar honrava a data. As famílias esperavam até o dia vinte e cinco para cear, trocar presentes e afagar os seus amados. Celebrando entre si, mesmo sem saber exatamente o porque, as pessoas traduziam a data em sua forma mais pura através do amor.

Atualmente, o natal resume-se a corridas frenéticas por entre o shopping lotado, ceia farta e bebida em dose excessiva. Os presentes que valem não são os de coração, e sim os de mais alto valor monetário. As relações pessoais são cheias de interesse, os sentimentos sinceros entram em extinção.

Pobre futuro, vemos tanta maldade nos olhos das crianças que crescem. Só os bebês tranquilos ignoram tudo enquanto adormecem. Acho que surgiu uma rima em prosa.

A sociedade, podre por excelência, transformou o natal em uma grande merda. Merda melancólica e sem sentido. Um festival de aparências que dura o tempo necessário para a fuga da obscura realidade cotidiana. Olho para o céu e vejo cair uma chuva invisível. Devem ser as lágrimas de alguém que não ganhou os presentes que queria, mas ainda assim ama aqueles que insistem em fazer tudo errado. A chuva é triste, mas cheia de esperança. Calados, abusamos mais uma vez de seu perdão.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Minha mãe.

A Condeno tudo que a minha mãe faz praticamente o tempo inteiro. Sou bruto, rude e absurdamente exagerado. Incapaz de pedir desculpas. Sim, ela pode ser horrível em certos momentos. Contudo, sou pior. Sei que estou errado, mesmo quando as minhas palavras estão no auge de sua crueldade. Tenho meus motivos para ser assim, ela também.

Após discussões dolorosas e intermináveis, ela foi capaz de ficar catorze dias ao meu lado ininterruptamente em um quarto de hospital. As vezes sinto raiva, muita raiva. O amor eu sinto sempre, misturado a uma turbulenta variedade de outros sentimentos. Quando estou com ela, reclamo, alfineto e abraço. Foi dela que eu sai e são nos seus braços que posso ficar por horas. Ela é a minha mãe, a única que eu tenho e a única que eu quero ter.

Fomos separados precocemente em vida, ela lá, eu cá. Acho que foi melhor assim, ou não, só Deus sabe. Compreendo tudo que ela fez comigo. Agradeço por tudo. Os momentos ruins a memória esconde, não apaga nunca. Não tenho rancor, nem remorso. Só culpa. O que ela fez de errado perde a importância em um curto espaço de tempo. Os meus erros me perseguem a cada segundo.

Não vejo a hora de ter minha própria vida, mas espero que ela saiba que eu nunca vou abandoná-la. Nem agora ela assim está. Não estou perto em corpo, mas penso nela o dia todo, o tempo inteiro. Ao contrário do que dizem, o amor não tem nada haver com convivência, o amor existe por si só. Eu a amo, e vou amar sempre. Aqui, em Paris ou na China. Em qualquer lugar. Sempre eu e ela, mãe e filho, em alma.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Se eu quiser falar com Deus.

A música, cujo título é o mesmo deste texto, vem me acompanhando durante toda a semana. Tenho a impressão que Gilberto Gil está falando diretamente comigo o tempo inteiro. Vê-lo pessoalmente deixou sequelas em minha mente. Para variar, fiquei um pouco mais louco.

Em meio as minhas provas finais, sinto medo. Medo de ter que passar por tudo isso novamente, agora que finalmente esta tudo a acabar. Sinto-me só. O desamparo, inspirado pelo espírito de Sartre, toma conta de mim. Tanta responsabilidade, tudo dependendo de mim. Começo a cantar a música citada anteriormente e tudo fica em paz. Descubro a importância de Gilberto, que serve de canal para uma verdadeira experiência divina. Sentado no chão, acompanho a música com a minha voz desafinada. Cazuza orgulharia-se de mim, Dean Moriarty idem. Sonhando acordado, sorrio.

Percebo que a vida esta em perfeito equilíbrio, alternando-se entre momentos de frenesi ao lado das pessoas amadas e canções solitárias no chão gelado do quarto. Alegria e melancolia juntas em uma grande e interminável dança. Avisto os risos descontrolados ao fim de tudo, sabendo que serão finitos. O finito infinito, contraditoriamente belo.